O uso do barro em psicoterapia

Após alguns anos de trabalho como estagiário na “Casa das Palmeiras”, na época em que a Dra. Nise da Silveira ainda era viva, o professor Álvaro de Pinheiro Gouvêa resolveu fazer o mestrado em Psicologia Clinica na PUC-Rio com a orientação da Professora francesa Monique Augras. Essa pesquisa de mestrado foi sobre o uso do barro como instrumento de trabalho do analista. O objetivo geral era usar o barro em análise e fora do âmbito da psicose, procurando ligar Arte e Vida. Assim, o consultório passou a ser uma espécie de “ateliê” onde o analista e o analisando além de falar, transformariam em imagens tudo aquilo que poderia ter sido a causa de suas dificuldades psicológicas atuais.

Durante a sua pesquisa, o barro começou a ser usado normalmente em seu consultório com crianças, adolescentes e mesmo adultos que buscavam dar forma às suas emoções, aos seus sonhos, procurando compreender melhor, através das imagens produzidas no barro, a vida com todos os seus problemas. Quando uma pessoa entra em contato sensorial e verbal com suas imagens internas, ela passa a entender um pouco mais o funcionamento da mente humana, o seu processo imaginativo. E, ao entrar em contato com a imagem de seus sonhos, torna-se capaz de evitar problemas psicológicos no futuro.

barroterapia03A fundamentação teórica usada inicialmente no trabalho do professor Álvaro baseava-se na teoria junguiana (Carl Gustav Jung) e nas ideias do filósofo francês Gaston Bachelard. O mestrado terminou e, alguns anos mais tarde, em 1989, foi publicado pela Summus o livro intitulado “Sol da Terra: o uso do barro em psicoterapia”. A metodologia para se utilizar o barro dentro do consultório foi esboçada nesse livro e mais tarde seria identificada pelos clientes e estagiários do curso de psicologia da PUC-Rio com a denominação de “Barroterapia”.

O que é a Barroterapia?

Para tentarmos explicar o que é esse processo psicoterápico e os seus resultados terapêuticos, precisamos, antes de tudo, esclarecer o que é o “ateliê de imagem”, lugar onde se desenvolve o processo analítico e, qual é a sua relação com o “ateliê íntimo”.

barroterapia04Toda criança é um artista e vê o mundo com um vasto ateliê. O mundo aparece como sendo uma espécie de ateliê onde ela brinca com gente, objetos e cores e começa a falar e a conviver com suas ideias, com sua imaginação, seus medos e mais tarde com seus amigos.

Tanto a criança como o adulto pensam porque têm mãos. quipromevaban.wordpress.com As mãos transformam as ideias em palavras e põem em evidência, através dos objetos que fabricamos no nosso cotidiano, o que existe escondido em nosso inconsciente. Ao lidar com os objetos a criança e o adulto começam a fabricar imagens e a perceber que existe uma diferença entre uma imagem apenas imaginada em sua cabeça e a imagem que ela tira da coisa concreta quando experimenta usar suas mãos e tocar os objetos.

barroterapia06As mãos passam então a ter uma importância muito grande na formação de suas ideias e de sua maneira de entender a vida. A Barroterapia é, então, uma maneira de fazer terapia com as mãos e a encontrar as palavras que elas querem comunicar ao nosso entendimento. As mãos escrevem com imagens as coisas que não estamos conseguindo dizer com as palavras. Elas ajudam as palavras a sair de nossa cabeça e passamos a entender o que antes estava confuso e nos angustiava.

O ateliê de imagens de barro e o próprio barro funcionam como um Suporte Fixo no qual se encontram, juntos, a imagem imaginada pela pessoa e o objeto concreto, isto é, a forma que a imagem tomou, por exemplo, em um a sessão com argila. Esse suporte fixo, a argila, obriga o delírio, a imagem imaginada, a parar de incomodar e a se fazer entender. Dá um limite para a imaginação, para o desejo, que ficam, ali, contidos, por exemplo, numa máscara de barro. Os nossos “monstros” internos encontram uma forma na argila, um tamanho e uma cor, melhor ainda, esse monstro se coloca fora da gente ao se transformar em uma imagem de barro no ateliê de imagem. Podemos, então, olhar para ele e ver quão inofensivo ele é.

Como mencionado anteriormente, existem dois tipos de ateliê: o ateliê de imagem e o ateliê íntimo.

O ateliê íntimo, que todos nós trazemos em nosso interior, espera uma oportunidade para ser projetado no ateliê de imagem. No ateliê íntimo, trabalhamos com uma imagem quando ela ainda está para nascer e que vamos chamar de Imago. A Imago é como chamamos essa força inconsciente que vai dar origem aos nossos sonhos, à nossa imaginação e às imagens imaginadas no nosso cotidiano, ou às imagens que às vezes inventamos para fazer as pessoas entenderem o que queremos falar. A imago tem sua origem no ateliê intimo e se concretiza no ateliê de imagem.

Dessa forma, no ateliê de imagem vamos estocar de maneira concreta e formal, no barro, nossas imagens imaginadas, que foram originadas lá no ateliê íntimo, no mais inconsciente do nosso ser. É assim que as formas geométricas ou abstratas nascidas em nosso íntimo ganham forma na argila e na pintura e contribuem para a produção da saúde. Um ponto pode ser um silêncio, uma espiral pode ser um desvio do círculo, até a linguagem verbal tem uma geometria. Em nosso ateliê íntimo, temos muitas imagens originais que não podemos, não queremos, não devemos ou não conseguimos expressar.

No ateliê de imagens, elas viram objetos, com os quais podemos brincar, olhar, mexer e até falar sobre eles. Com essa prática, de lidar com os objetos que criamos no barro, de brincar com eles, como objetos de um jogo, podemos até acessar e organizar o turbilhão de imagens muitas vezes confuso lá de nosso ateliê íntimo.

O professor Álvaro se apropriou de uma palavra inventada por um poeta francês chamado Francis Ponge para nomear estes objetos do brincar analítico: objeu (objet mais jeu, jogo em francês). O objeu (diz-se objê) significaria o objeto mais próximo possível do jogo, ou seja, o objeto que o analisando criaria na sessão de terapia. É assim que o trabalho clínico no ateliê age na prevenção de problemas psicossomáticos. Afinal, criar uma bomba de argila é muito diferente de fabricar uma bomba de verdade.

barroterapia08As imagens criadas nos ateliês são, portanto, metáforas do desejo, porque tornam visíveis, no barro ou através do uso de pigmentos coloridos, o invisível de nossos problemas. A imagem imaginada em nossa cabeça ganha forma através das mãos que manipulam objetos materiais como argila, tintas, pedras, tecidos etc., e tornam-se imagens concretas, suportes, continentes para a imagem imaginada, que é um veículo de nosso ser mais íntimo. E todos os objetos concretos que criamos nesse ateliê de imagens, têm um sentido e comunicam uma mensagem que precisa ser decifrada. Quando observamos nossa ideia expressada no barro temos uma metáfora sensorial com a qual precisamos entrar em contato para ficar dono de nossas emoções e desejos.

O ateliê onde são fabricadas as imagens com argila ou com pigmentos coloridos em telas é um espaço criativo que não abre mão da reflexão e da teoria psicológica. Essa teoria resultou das práticas clínicas do professor Álvaro de Pinheiro Gouvêa e, como já falamos, sua formulação está descrita em detalhes em seu livro “O Sol da Terra” (Editora, data e link com um saiba mais sobre O Sol da Terra) e no livro “A Tridimensionalidade da Relação Analítica” (Editora e link).

Na terapia em que o psicólogo faz uso do barro ou de outros objetos (tintas, telas, colas, gesso, etc.) como ferramenta de trabalho, o processo terapêutico se dá numa relação triádica envolvendo o terapeuta, o cliente e o objeto criado em cada sessão. O objeto é um facilitador terapêutico que nos ajuda de maneira criativa a dar forma à palavra e a manusearmos de dentro para fora e de fora para dentro nossas fantasias. Já não precisamos mais viver carregando como um peso aquela ideia, aquela sensação ou aquela emoção. Essas nossas produções íntimas podem ir para fora, podemos vê-las, analisá-las, compreendê-las, lhes dar um novo significado. E, principalmente, expressá-las na argila ou nas telas, quando estiverem desconfortáveis, desorganizadas ou incompreensíveis em nosso ateliê íntimo, ou seja, em nosso inconsciente.

Dessa forma, acatamos a denominação de “Barroterapia” para o tratamento psicológico que envolva não apenas o barro como “ferramenta de trabalho do analista”, mas também outros objetos que possam ajudar a transformar o espaço da terapia em uma brincadeira divertida e terapêutica com as imagens de nossas emoções. Assim, ao criar formas manuseando nossos sonhos, angústias e desejos, viveremos com mais saúde, fluidez e alegria. Concluindo, diria que o uso do barro ou de pigmentos coloridos em psicoterapia nos envolve numa “Barroterapia” e nos ensina que podemos viver em constante movimento criativo, expressando e compreendendo nossos desconfortos da vida cotidiana.